terça-feira, 20 de novembro de 2012

PARA UM POETA - Weslley Barbosa


(mas ao meu jeito)

Rio sem água
é poeta sem palavra
cessado o jorro da límpida correnteza
retesa a língua
enguiça a goela
empaca a pena.
Resta a pedra, palavra
solta
pedregulho, verborragia.
Poeta seco
só encontra pedras
perdido o rumo
des-curso ao léu.
Somente as pedras
presas na língua
somente as pedras,
perdidas no caminho
somente pedras no caminho
e o poeta fatigado
segue vagaroso e de mãos pensas
avaliando...
Ora, mas não era pra Drummond o poema!!!


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Título: Para um poeta (mas ao meu jeito)
Autor: Weslley Barbosa

Poema publicado originalmente no livro Suspiros Mal-ditos (Ixtlan, 2010)viagens e turismo


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O QUE FAZ DE UM POEMA A SORTE? - Antonio Morais de Carvalho


seiva de grupos no açoite
sangue de corpos nus na noite
selva de signos sem norte
chamas no templo, na corte
angústia de ser à contra-sorte
tudo nada tempo morte?

ou palavra, palavra,
o mais profundo corte?

a palavra-certa corta a sorte?
a palavra-forte enforca o açoite?
a palavra-norte arde a corte?
a palavra-bote vara a noite?
a palavra-arte rompe a morte?


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Título: Um lance de dados
Autor: Antonio Morais de Carvalho

Poema originalmente publicado no livro Jogo de sentidos (1986)


O MENINO QUE SONHAVA - Ronaldo Cunha Lima


O menino que sonhava
fazia versos, brincava
contando estrelas, cresceu.

           O homem que foi menino
           sem ligar ao seu destino
           do menino se esqueceu.

                       Criou a sua paisagem
                       bem diferente da imagem
                       que sua infância viveu.

                                   Quando o homem quis amar,
                                   sentindo algo faltar
                                   à infância recorreu,

                                          mas nela nada encontrava.
                                          O menino que sonhava
                                          Dentro do homem, morreu.


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Título: O menino que sonhava
Autor: Ronaldo Cunha Lima

Poema originalmente publicado na obra Azul itinerante (2006)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ENTRE TÉDIO E VODCA - JOSÉ ANTONIO ASSUNÇÃO


Qual rodela de limão
em vodca submersa,
eis o estóico mundo:
geografia do tédio.

Agito o meu copo
(lúdico itinerário)
e ela apenas boceja
em sua etílica órbita.

Em que caos despencará
(não essa tosca metáfora)
quando o desesperado Deus
beber o último gole?

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Título: Entre tédio e vodca
Autor: José Antonio Assunção (1941)
Naturalidade: Sorocaba - SP
Obra: O câncer no pêssego (Ideia - 1992)

NAS CRINAS DA PAIXÃO - José Antonio Assunção



Galopemos os cavalos da chuva, amor
galopemos os seus músculos azuis.

Aqui é como se fossem feéricas nuvens
e nossos corpos, roçando,
vão tecendo dríades.

Cavalguemos, pois, essas dríades azuis
e deixemo-nos guiar, amor,
para onde apontam as crinas da paixão.

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Título: Nas crinas da paixão
Autor: José Antonio Assunção

Poema originalmente publicado no livro O câncer no pêssego (Idéia, 1992)


O ÚLTIMO VOO DO GRIFO - Weslley Barbosa



Ei-lo à beira do abismo hostil
o peso nas costas é a vida inteira
que dói, atormenta, martela, maltrata...
Só raios vorazes
e o brilho dos canivetes rompem as trevas.
O vôo no nada é novo suicídio.
Perdidas as asas,
corpo de fera nada vale.

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Título: Entre rio e margem
Autor: Weslley Barbosa

Poema publicado originalmente no livro Suspiros Mal-ditos (Ixtlan, 2010)viagens e turismo


O PESO DO VAZIO - Jomar Morais Souto


Carrega-o esta noite como a barca
ao nauta triste sem destino algum.
Velame branco e imóvel faz-se a marca
desse minguante assim sem fim nenhum...

E enquanto o nauta triste a noite embarca,
é trágico de beijos o jejum.
E é desencanto a vida e a morte parca
para um que assim é sempre e sempre um.

Procura sem saber onde encontrar.
E âncoras levanta enferrujadas,
ignorando o porto e o próprio mar.

Está sozinho. E é noite. E sente frio.
E sabe que milhões de toneladas
não pesam mais que o peso do vazio.


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Título: O peso do vazio
Autor: Jomar Morais Souto

Poema originalmente publicado no livro Agrarianas e outros poemas escolhidos (Ars Poetica, 1996)

VOZES DE UM TÚMULO - Augusto dos Anjos



Morri! E a terra – a mãe comum – o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o augusto filho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta...
Hoje, porém, que desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!



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Título: Vozes de um túmulo 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

VOZES DA MORTE - Augusto dos Anjos



Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah, esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos!

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Título: Vozes da Morte 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)hotel turismo


ANTE O CADÁVER DE CRUZ E SOUZA - Carlos Dias Fernandes



Ah! Que eterno poder maravilhoso
Era esse que o corpo te animava,
E que a tu’alma límpida vibrava
Como um plangente carrilhão mavioso?

Que sol ardente, que fecunda lava,
Que secreto clarão, mago e radioso,
Dentro em teu ser, como um vulcão raivoso,
Eternamente em convulsões estuava?...

Que anjos celestes, cândidos e graves,
Faziam de teu ser floridas naves,
Cheios de augustos cânticos eternos?

Que mão foi essa, lívida e gelada,
Que sufocou tu’alma, acriolada
Na tortura de todos os infernos?!...

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Título: Ante o cadáver de Cruz e Souza
Autor: Carlos Dias Fernandes

Poema retirado do livro Autores paraibanos - poesia (Grafset, 2005)


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

LANCE DE DADOS - Antonio Morais de Carvalho


Não partirei do nada.
Também não serei espelho.
Somente o mundo
é sua fotografia.

Jogando dados
contra Deus & Demo
será insonte
banir o acaso
(quem ajudará o poeta
a parar os dados
no numeral de achados?).

A fada guiará meu fado.
Mas eu guiarei a fada:
serei seu fado.

Olho para o mundo:
será meu fato?


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Título: Um lance de dados
Autor: Antonio Morais de Carvalho

Poema originalmente publicado no livro Jogo de sentidos (1986)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ATÉ NO LIXO - Virgínius da Gama e Melo



Começou com a queixa: “Um urubu pousou na minha sorte!” Julgava-se desgraçado pela presença incômoda desse urubu pousado em seu destino.

Teria sido acompanhado, a vida toda, por esse urubu. E há quem pense que o urubu acompanhou o poeta até depois de morto.

Não é bem assim. Hoje, o poeta é uma luz permanente, um ponto, talvez o mais alto, da poesia brasileira.

Há quem diga que esse urubu foi o governador João Machado, que teria demitido o poeta.

Em virtude disso, os familiares de Augusto dos Anjos negam à Paraíba os ossos do poeta, as cinzas do vate, para um mausoléu em terras paraibanas.

Pode ser esse o motivo, mas pode haver também uma medida de cautela, de prudência, para não submeter Augusto a outros possíveis vexames.

O poeta, na verdade, não se tem dado bem com a Paraíba. Veja-se aquele busto que foi homenageado, domingo último, Ali na Lagoa. O prefeito Hermano de Almeida fez a festa, trouxe a banda de música, Humberto Nóbrega fez discurso e plantou o tamarindo.

E o busto ali, impassível.

Esse busto, tão bem trabalhado por Humberto Cozzo, passou longo tempo abandonado, e só foi reencontrado por obra e graça duma limpeza no atelier do escultor.

Quando juntaram tudo que era lixo, lá encontraram nos fundos do atelier o busto de Augusto entre o busto de Calabar e o outro da Marquesa de Santos.

Por que os três bustos abandonados no fundo do atelier?

Ora, ora, eram obras feitas por encomenda e que não haviam sido pagas.

Quem encomendara o busto de Augusto dos Anjos? A encomenda datava de 1924. Ele, Cozzo, fizera o busto e ficara esperando o pagamento. Como ninguém viesse, o Augusto foi recuado para o fundo do atelier. No princípio até ficara entre um Pedro I e um Borba Gato, depois, entre o índio Araribóia e o bispo Sardinha; por fim, ali, entre o traidor Calabar e a traiçoeira e pecaminosa Marquesa de Santos.

É tanto que, quando em 1945, chegou ao rio o escritor e jornalista Valdemar Duarte, presidente da Campanha Pro-Busto de Augusto dos Anjos, promovida pelo Grêmio Literário Dias Júnior, que era movimentado, entre outros, por Severino Teotônio de Carvalho, Hoje residente em Vitória do Espírito Santo, Inaldo Lacerda Lima, residente em Brasília, Abdias dos Santos Passos e Salvador Guerra de Vasconcelos, a primeira coisa que Humberto Cozzo indagou de Valdemar foi:

- Vocês têm dinheiro para pagar o busto?

- Bom, não temos não, mas vamos arranjar.

Humberto Cozzo pousou o martelo e o cinzel na cara de Getúlio Vargas (estava fazendo o busto do Presidente) e declarou:

- Não se preocupem com dinheiro. Os seus conterrâneos, todos paraibanos ilustres, já me procuraram em 1924 e encomendaram o busto. Fiz. Não pagaram. Está aí nos fundos. Dou de graça. Faço uma doação à Paraíba.

E fez. Está ai o busto na lagoa. O busto que veio do lixo, recuperado graças ao bravo Valdemar Duarte.

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Título: Até no lixo
Autor: Virgínius da Gama e Melo

Poema retirado do livro Autores paraibanos - prosa (Grafset, 2005)


BOLHAS - Ronaldo Cunha Lima



Num aquário pequeno, exposto à venda,
um peixe solitário, dentre as folhas,
de boca aberta ia soltando bolhas
e dessas bolhas cosicando rendas.

De quando em vez fazia a corrigenda
d’algumas bolhas falhas e pimpolhas,
e doutras bolhas atentava escolhas
das bolhas para encaixe e para emenda.

A visão desse peixe solitário
entre bolhas do nada é o cenário
do mundo solitário de mim mesmo.

A vida, para mim, é imenso aquário
onde tudo o que sonho é um estuário
de bolhas de ilusões, soltas a esmo.

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Título: Bolhas 
Autor: Ronaldo Cunha Lima

Soneto originalmente publicado na obra Sal no rosto (José Olympio, 2006)imobiliarias rs

A ÁRVORE DA SERRA - Augusto dos Anjos



- As árvores, meu filho, não têm alma!
E, esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!...

- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

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Título: A árvore da serra 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)hotel turismo

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O RIO - José Lins do Rego


O rio Paraíba corria bem próximo ao cercado. Chamavam-no "o rio". E era tudo. Em tempos antigos fora muito mais estreito. Os marizeiros e as ingazeiras apertavam as duas margens e as águas corriam em leito mais fundo. Agora era largo e, quando descia nas grandes enchentes, fazia medo. Contava-se o tempo pelas eras das cheias. Isto se deu na cheia de 1893, aquilo se fez depois da cheia de 1968. Para nós meninos, o rio era mesmo a nossa serventia nos tempos de verão, quando as águas partiam e se retinham nos poços. Os moleques saíam para lavar os cavalos e íamos com eles. Havia o Poço das Pedras, lá para as bandas da paciência. Punham-se os animais dentro d'água e ficávamos nos banhos, nos cangapés. Os aruás cobriam os lajedos, botando  botando gosma pelo casco. Nas grandes secas o povo comia aruá que tinha gosto de lama. O leito do rio cobria-se de junco e faziam-se plantações de batata-doce pelas vazantes. Era o bom rio da seca a pagar o que fizera de mau nas cheias devastadoras. E quando ainda não partia a corrente, o povo grande do engenho armava banheiros de palha para o banho das moças. As minhas tias desciam para a água fria do paraíba que ainda não cortava sabão.

O rio para mim seria um ponto de contato com o mundo. Quando estava ele de barreira a barreira, no marizeiro maior, amarravam a canoa que Zé Guedes manobrava.

Vinham cargueiros do outro lado pedindo passagem. Tiravam as cangalhas dos cavalos e, enquanto os canoeiros remavam a toda a força, os animais, com as cabeças agarradas pelo cabresto, seguiam nadando ao lado da embarcação. Ouvia então a conversa dos estranhos. Quase sempre eram aguardenteiros contrabandistas que atravessavam, vindos dos engenhos de Itambé com destino ao sertão. Falavam do outro lado do mundo, de terras que não eram de meu avô. Os grandes do engenho não gostavam de me ver metido com aquela gente. Às vezes o meu avô aparecia para dar gritos. Escondia-me no fundo da canoa até que ele fosse para longe. Uma vez eu e o moleque Ricardo chegamos na beira do rio e não encontramos ninguém. O Paraíba dava somente um nado e corria no manso, sem correnteza forte. Ricardo desatou a corda, meteu-se na canoa comigo, e quando procurou manobrar era impossível. A canoa foi descendo rio abaixo aos arrancos da água. Não havia força que pudesse contê-la. Pus-me a chorar alto, senti-me arrastado para o fim da terra. Mas Zé Guedes, vendo a canoa solta, correu pela beira do rio e foi nos pegar quase no poço das pedras. Ricardo nem tomara conhecimento do desastre. Estava sentado na popa. Zé Guedes porém deu-lhe umas lapadas de cinturão e gritou para mim:

- Vou dizer ao velho!

Não disse nada. Apenas a viagem malograda me deixou alarmado. Fiquei com medo da canoa e apavorado com o rio. Só mais tarde é que voltaria ele a ser para mim mestre de vida.


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Título: O rio
Autor: José Lins do Rego


Crônica retirada do livro O Melhor da Crônica Brasileira (José Olympio, 2003)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

CALEIDOSCÓPIO - José Antonio Assunção


Mais que ave, desfile
de vária fantasia,
noite de gala.


Dama elegante
em gesto langue
abrindo seu leque
caleidoscópico.


Narciso ou eco
espelhando um sonho
plumipomposo?


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Título: Caleidoscópio
Autor: José Antonio Assunção

Poema retirado do livro A trapaça da rosa (Manufatura, 1998)


domingo, 22 de abril de 2012

POEMA – Ascendino Leite



Vem, amiga, não vaciles.
Vem, puro que sou.
Põe os teus braços
                        nos meus
e a estes se agarrem
                           os teus,
                  só assim farás
parte de mim
                   e eu direi que
                   sou teu.





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Título: Poema
Autor: Ascendino Leite

Poema retirado do livro Autores Paraibanos: poesia (Grafset, 2005)


sábado, 21 de abril de 2012

NAQUELA TARDE - Peryllo Doliveira


Passou por mim, altiva, indiferente,
como se me não visse.
Passou... sumiu-se de repente,
leve como uma sombra que fugisse,
como uma sombra silenciosamente.
Meu triste olhar seguiu-a ansiosamente
como a um sonho de amor que se diluísse
à hora agônica do poente.
E eu fiquei a pensar amargamente
no que ela me diria se sentisse
a ternura, a meiguice
das coisas que eu sonhei intimamente,
se ela ouvisse,
quando passou por mim, altiva, indiferente,
tudo o que eu quis dizer e ela não disse...


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Título: Naquela tarde
Autor: Peryllo Doliveira

Poema retirado do livro Autores paraibanos: poesia (Grafset, 2005)

domingo, 1 de abril de 2012

POR QUEM OS SINOS NÃO DOBRAM? – Jomar Morais Souto


Espaçado dobre longínquo
de chocalho suspenso
no pescoço que o campo
vai levando lento, lento.

- Que música és, passado, assim
cadência e ritmo, ressonância
e mais, sabendo-se que tem
e tem e tem, como uma ânsia?

Chocalho ao longe, lado a lado.
Cobre no cobre suavizado.
O crepe e a dor que tampo
escorrer eu faço,
dobre espaçado no finado campo.

- Que dor é essa que o finado sabe
assim, o sol sobre o seu vulto,
campo insepulto,
semi-enterrado?
Pássaros voam, lado a lado,
como o cobre do chocalho cobre
em seu inacabado dobre
o canto começado.

És pá
És pá
(você é impar
eu sou par)
és passado tanto, e atento, e tanto,
dobre espaçado, és passado o campo
no seu suor e no seu pirilampo,
ficando o chocalho falho
suspenso de outros pescoços de cimento altos
cobertos de andorinhas na cidade.

Como eu te choro, campo,
como eu te choro
assim
semi-enterrado!


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Título: Por quem os sinos não dobram?
Autor: Jomar Morais Souto

Poema originalmente publicado no livro Agrarianas e outros poemas escolhidos (Ars Poetica, 1996)

segunda-feira, 19 de março de 2012

PARIS-TEXAS - José Antonio Assunção


Algum dia sonhei Paris.
Ver a Torre Eiffel de Paris
o museu do Louvre de Paris
les fleurs des Champs-Elisées de Paris.

Depois conheci Drummond. Li
Pessoa, Borges, Camus
e de algum modo fui (sem ver Paris)
o errático Rimbaud, sem tempo de Utopia.

O sentimento do mundo vinha adiposo com Bibi
mercador das flores do tédio onde aprendi
que o homem é êxule Sísifo,
estrangeiro em Paris como em qualquer lugar.

Hoje, já não sonho Paris; vivo o Texas,
Dante. Aos olhos de um homem em crise
toda geografia é o mesmo acidente.




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Título: Paris-Texas
Autor: José Antonio Assunção

Poema originalmente publicado no livro O câncer no pêssego (Idéia, 1992)

sexta-feira, 9 de março de 2012

A IDEIA - Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...


Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!

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Título: A ideia
Autor: Augusto dos Anjos

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

VERSOS ÍNTIMOS - Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Título: Versos íntimos
Autor: Augusto dos Anjos

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

quinta-feira, 8 de março de 2012

O PÁSSARO - Ronaldo Cunha Lima

Abriu as asas e voou sozinho,
magicando que o céu atingiria.
Sentindo que o horizonte lhe mentia,
resolve retornar para o seu ninho.


É azul, todo azul o seu caminho
no retorno da longa travessia.
Por um momento, o vento, a ventania,
faz voar bem mais alto o passarinho.


Acima, mais acima, vê condores,
lá embaixo, na terra, os caçadores
e, entre nuvens, nas nuvens se embaraça.


Seu sonho de voar se extinguira.
O azul do horizonte é uma mentira
e a terra, verdejante, uma ameaça.

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Título: O pássaro
Autor: Ronaldo Cunha Lima


Soneto originalmente publicado na obra Azul itinerante (2006)

quarta-feira, 7 de março de 2012

ONDE ESTÃO AS BORBOLETAS AZUIS? - José Lins do Rego



O dia hoje está uma maravilha e, aqui de minha casa, eu olho para a lagoa que tem as águas luminosas pelo sol de maio que há pouco nascera. É uma manhã de glória como dizem os poetas, e para gozá-la, saio para passear.


Nada nesta cidade se parece mais com um recanto de romance que esta lagoa mansa, sem rumores de ondas, quieta, sem arrogâncias de águas raivosas. Tudo por aqui é como se fosse domado pela mão do homem, lagoa doméstica que, pela sabedoria sanitária do Saturnino de Brito, se transformara, de foco de mosquitos e de febres, em esplendor de beleza, capaz de em planos de bom urbanista ser o orgulho de uma cidade. Mas, mal o cronista apaixonado pelos recantos idílicos da natureza inicia a sua viagem lírica, começa a sentir que os homem são criaturas sem entranhas, terríveis criaturas sem amor ao que deviam amar, sem cuidado pelo que deviam cuidar. 


Porque, mal me pus a andar pelas terras que circundam a lagoa, o que vi não é para que se conte.


Há quem diga e afirme que o brasileiro não gosta da natureza. Que todos somos inimigos das árvores, dos rios, da terra. E há a teoria de que o pavor da floresta nos transformara em citadinos., em derrubadores das matas, queimadores de terras. Mas esta teoria não corresponde à realidade, se nos voltarmos para os bosques e jardins de outrora que por toda a parte alegravam as nossas cidade.


Aqui no Rio, de tempos para cá, deu nos homens de governo uma verdadeira doença que é este desprezo e quase ódio pelos nossos recantos da natureza.


Há o caso das matas da Tijuca, para uma exceção honrosa. Mas, por outro lado, há este caso da Lagoa Rodrigo de Freitas, como um crime monstruoso. Porque tudo que é erros e mais erros foram cometidos em relação à paisagem deste maravilhoso pedaço de nossa cidade. 


Isto de se conduzir o lixo do Rio para aterrar trechos e trechos de uma massa líquida que é um regalo para os olhos, não merece nem um comentário, pela estupidez, pela lamentável grosseria de homens que não respeitam nada. 


E feito isto não há quem possa se aproximar da Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá estão os bichos podres, uma fedentina horrível a atrair os urubus como uma "sapucaia". E o que podia ser uma atração para os que pretendessem repousar, é aquilo que nos envergonha e nos dói.


O sr. Hildebrando de Góis, que saneou a "Baixada Fluminense", se quiser encontrar o que sanear, que faça este passeio a que o modesto cronista se arriscou, por entre lixos, com urubus quase a roçarem-lhe o rosto.


Onde estão as borboletas azuis do poeta Casimiro?

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Título: Onde estão as borboletas azuis
Autor: José Lins do Rego


Crônica retirada do livro O Melhor da Crônica Brasileira (José Olympio, 2003)