segunda-feira, 19 de março de 2012

PARIS-TEXAS - José Antonio Assunção


Algum dia sonhei Paris.
Ver a Torre Eiffel de Paris
o museu do Louvre de Paris
les fleurs des Champs-Elisées de Paris.

Depois conheci Drummond. Li
Pessoa, Borges, Camus
e de algum modo fui (sem ver Paris)
o errático Rimbaud, sem tempo de Utopia.

O sentimento do mundo vinha adiposo com Bibi
mercador das flores do tédio onde aprendi
que o homem é êxule Sísifo,
estrangeiro em Paris como em qualquer lugar.

Hoje, já não sonho Paris; vivo o Texas,
Dante. Aos olhos de um homem em crise
toda geografia é o mesmo acidente.




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Título: Paris-Texas
Autor: José Antonio Assunção

Poema originalmente publicado no livro O câncer no pêssego (Idéia, 1992)

sexta-feira, 9 de março de 2012

A IDEIA - Augusto dos Anjos

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!


Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!


Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica ...


Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica!

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Título: A ideia
Autor: Augusto dos Anjos

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

VERSOS ÍNTIMOS - Augusto dos Anjos


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

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Título: Versos íntimos
Autor: Augusto dos Anjos

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

quinta-feira, 8 de março de 2012

O PÁSSARO - Ronaldo Cunha Lima

Abriu as asas e voou sozinho,
magicando que o céu atingiria.
Sentindo que o horizonte lhe mentia,
resolve retornar para o seu ninho.


É azul, todo azul o seu caminho
no retorno da longa travessia.
Por um momento, o vento, a ventania,
faz voar bem mais alto o passarinho.


Acima, mais acima, vê condores,
lá embaixo, na terra, os caçadores
e, entre nuvens, nas nuvens se embaraça.


Seu sonho de voar se extinguira.
O azul do horizonte é uma mentira
e a terra, verdejante, uma ameaça.

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Título: O pássaro
Autor: Ronaldo Cunha Lima


Soneto originalmente publicado na obra Azul itinerante (2006)

quarta-feira, 7 de março de 2012

ONDE ESTÃO AS BORBOLETAS AZUIS? - José Lins do Rego



O dia hoje está uma maravilha e, aqui de minha casa, eu olho para a lagoa que tem as águas luminosas pelo sol de maio que há pouco nascera. É uma manhã de glória como dizem os poetas, e para gozá-la, saio para passear.


Nada nesta cidade se parece mais com um recanto de romance que esta lagoa mansa, sem rumores de ondas, quieta, sem arrogâncias de águas raivosas. Tudo por aqui é como se fosse domado pela mão do homem, lagoa doméstica que, pela sabedoria sanitária do Saturnino de Brito, se transformara, de foco de mosquitos e de febres, em esplendor de beleza, capaz de em planos de bom urbanista ser o orgulho de uma cidade. Mas, mal o cronista apaixonado pelos recantos idílicos da natureza inicia a sua viagem lírica, começa a sentir que os homem são criaturas sem entranhas, terríveis criaturas sem amor ao que deviam amar, sem cuidado pelo que deviam cuidar. 


Porque, mal me pus a andar pelas terras que circundam a lagoa, o que vi não é para que se conte.


Há quem diga e afirme que o brasileiro não gosta da natureza. Que todos somos inimigos das árvores, dos rios, da terra. E há a teoria de que o pavor da floresta nos transformara em citadinos., em derrubadores das matas, queimadores de terras. Mas esta teoria não corresponde à realidade, se nos voltarmos para os bosques e jardins de outrora que por toda a parte alegravam as nossas cidade.


Aqui no Rio, de tempos para cá, deu nos homens de governo uma verdadeira doença que é este desprezo e quase ódio pelos nossos recantos da natureza.


Há o caso das matas da Tijuca, para uma exceção honrosa. Mas, por outro lado, há este caso da Lagoa Rodrigo de Freitas, como um crime monstruoso. Porque tudo que é erros e mais erros foram cometidos em relação à paisagem deste maravilhoso pedaço de nossa cidade. 


Isto de se conduzir o lixo do Rio para aterrar trechos e trechos de uma massa líquida que é um regalo para os olhos, não merece nem um comentário, pela estupidez, pela lamentável grosseria de homens que não respeitam nada. 


E feito isto não há quem possa se aproximar da Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá estão os bichos podres, uma fedentina horrível a atrair os urubus como uma "sapucaia". E o que podia ser uma atração para os que pretendessem repousar, é aquilo que nos envergonha e nos dói.


O sr. Hildebrando de Góis, que saneou a "Baixada Fluminense", se quiser encontrar o que sanear, que faça este passeio a que o modesto cronista se arriscou, por entre lixos, com urubus quase a roçarem-lhe o rosto.


Onde estão as borboletas azuis do poeta Casimiro?

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Título: Onde estão as borboletas azuis
Autor: José Lins do Rego


Crônica retirada do livro O Melhor da Crônica Brasileira (José Olympio, 2003)

terça-feira, 6 de março de 2012

NATAL, 1987 - José Antonio Assunção

O perdido gesto
de vasculhar os sapatos
na Manhã dos Sinos.


Os próprios sapatos
(itinerário de ti?)
já quedam rotos
nas rugas do tempo.


E o menino antigo,
só de teimoso,
suporta o presente.

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Autor: José Antonio Assunção
Texto originalmente publicado no livro O câncer no pêssego (1992)