quarta-feira, 7 de março de 2012

ONDE ESTÃO AS BORBOLETAS AZUIS? - José Lins do Rego



O dia hoje está uma maravilha e, aqui de minha casa, eu olho para a lagoa que tem as águas luminosas pelo sol de maio que há pouco nascera. É uma manhã de glória como dizem os poetas, e para gozá-la, saio para passear.


Nada nesta cidade se parece mais com um recanto de romance que esta lagoa mansa, sem rumores de ondas, quieta, sem arrogâncias de águas raivosas. Tudo por aqui é como se fosse domado pela mão do homem, lagoa doméstica que, pela sabedoria sanitária do Saturnino de Brito, se transformara, de foco de mosquitos e de febres, em esplendor de beleza, capaz de em planos de bom urbanista ser o orgulho de uma cidade. Mas, mal o cronista apaixonado pelos recantos idílicos da natureza inicia a sua viagem lírica, começa a sentir que os homem são criaturas sem entranhas, terríveis criaturas sem amor ao que deviam amar, sem cuidado pelo que deviam cuidar. 


Porque, mal me pus a andar pelas terras que circundam a lagoa, o que vi não é para que se conte.


Há quem diga e afirme que o brasileiro não gosta da natureza. Que todos somos inimigos das árvores, dos rios, da terra. E há a teoria de que o pavor da floresta nos transformara em citadinos., em derrubadores das matas, queimadores de terras. Mas esta teoria não corresponde à realidade, se nos voltarmos para os bosques e jardins de outrora que por toda a parte alegravam as nossas cidade.


Aqui no Rio, de tempos para cá, deu nos homens de governo uma verdadeira doença que é este desprezo e quase ódio pelos nossos recantos da natureza.


Há o caso das matas da Tijuca, para uma exceção honrosa. Mas, por outro lado, há este caso da Lagoa Rodrigo de Freitas, como um crime monstruoso. Porque tudo que é erros e mais erros foram cometidos em relação à paisagem deste maravilhoso pedaço de nossa cidade. 


Isto de se conduzir o lixo do Rio para aterrar trechos e trechos de uma massa líquida que é um regalo para os olhos, não merece nem um comentário, pela estupidez, pela lamentável grosseria de homens que não respeitam nada. 


E feito isto não há quem possa se aproximar da Lagoa Rodrigo de Freitas. Lá estão os bichos podres, uma fedentina horrível a atrair os urubus como uma "sapucaia". E o que podia ser uma atração para os que pretendessem repousar, é aquilo que nos envergonha e nos dói.


O sr. Hildebrando de Góis, que saneou a "Baixada Fluminense", se quiser encontrar o que sanear, que faça este passeio a que o modesto cronista se arriscou, por entre lixos, com urubus quase a roçarem-lhe o rosto.


Onde estão as borboletas azuis do poeta Casimiro?

_______________________________


Título: Onde estão as borboletas azuis
Autor: José Lins do Rego


Crônica retirada do livro O Melhor da Crônica Brasileira (José Olympio, 2003)

Nenhum comentário:

Postar um comentário