domingo, 22 de abril de 2012

POEMA – Ascendino Leite



Vem, amiga, não vaciles.
Vem, puro que sou.
Põe os teus braços
                        nos meus
e a estes se agarrem
                           os teus,
                  só assim farás
parte de mim
                   e eu direi que
                   sou teu.





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Título: Poema
Autor: Ascendino Leite

Poema retirado do livro Autores Paraibanos: poesia (Grafset, 2005)


sábado, 21 de abril de 2012

NAQUELA TARDE - Peryllo Doliveira


Passou por mim, altiva, indiferente,
como se me não visse.
Passou... sumiu-se de repente,
leve como uma sombra que fugisse,
como uma sombra silenciosamente.
Meu triste olhar seguiu-a ansiosamente
como a um sonho de amor que se diluísse
à hora agônica do poente.
E eu fiquei a pensar amargamente
no que ela me diria se sentisse
a ternura, a meiguice
das coisas que eu sonhei intimamente,
se ela ouvisse,
quando passou por mim, altiva, indiferente,
tudo o que eu quis dizer e ela não disse...


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Título: Naquela tarde
Autor: Peryllo Doliveira

Poema retirado do livro Autores paraibanos: poesia (Grafset, 2005)

domingo, 1 de abril de 2012

POR QUEM OS SINOS NÃO DOBRAM? – Jomar Morais Souto


Espaçado dobre longínquo
de chocalho suspenso
no pescoço que o campo
vai levando lento, lento.

- Que música és, passado, assim
cadência e ritmo, ressonância
e mais, sabendo-se que tem
e tem e tem, como uma ânsia?

Chocalho ao longe, lado a lado.
Cobre no cobre suavizado.
O crepe e a dor que tampo
escorrer eu faço,
dobre espaçado no finado campo.

- Que dor é essa que o finado sabe
assim, o sol sobre o seu vulto,
campo insepulto,
semi-enterrado?
Pássaros voam, lado a lado,
como o cobre do chocalho cobre
em seu inacabado dobre
o canto começado.

És pá
És pá
(você é impar
eu sou par)
és passado tanto, e atento, e tanto,
dobre espaçado, és passado o campo
no seu suor e no seu pirilampo,
ficando o chocalho falho
suspenso de outros pescoços de cimento altos
cobertos de andorinhas na cidade.

Como eu te choro, campo,
como eu te choro
assim
semi-enterrado!


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Título: Por quem os sinos não dobram?
Autor: Jomar Morais Souto

Poema originalmente publicado no livro Agrarianas e outros poemas escolhidos (Ars Poetica, 1996)