domingo, 1 de abril de 2012

POR QUEM OS SINOS NÃO DOBRAM? – Jomar Morais Souto


Espaçado dobre longínquo
de chocalho suspenso
no pescoço que o campo
vai levando lento, lento.

- Que música és, passado, assim
cadência e ritmo, ressonância
e mais, sabendo-se que tem
e tem e tem, como uma ânsia?

Chocalho ao longe, lado a lado.
Cobre no cobre suavizado.
O crepe e a dor que tampo
escorrer eu faço,
dobre espaçado no finado campo.

- Que dor é essa que o finado sabe
assim, o sol sobre o seu vulto,
campo insepulto,
semi-enterrado?
Pássaros voam, lado a lado,
como o cobre do chocalho cobre
em seu inacabado dobre
o canto começado.

És pá
És pá
(você é impar
eu sou par)
és passado tanto, e atento, e tanto,
dobre espaçado, és passado o campo
no seu suor e no seu pirilampo,
ficando o chocalho falho
suspenso de outros pescoços de cimento altos
cobertos de andorinhas na cidade.

Como eu te choro, campo,
como eu te choro
assim
semi-enterrado!


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Título: Por quem os sinos não dobram?
Autor: Jomar Morais Souto

Poema originalmente publicado no livro Agrarianas e outros poemas escolhidos (Ars Poetica, 1996)

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