segunda-feira, 3 de setembro de 2012

ATÉ NO LIXO - Virgínius da Gama e Melo



Começou com a queixa: “Um urubu pousou na minha sorte!” Julgava-se desgraçado pela presença incômoda desse urubu pousado em seu destino.

Teria sido acompanhado, a vida toda, por esse urubu. E há quem pense que o urubu acompanhou o poeta até depois de morto.

Não é bem assim. Hoje, o poeta é uma luz permanente, um ponto, talvez o mais alto, da poesia brasileira.

Há quem diga que esse urubu foi o governador João Machado, que teria demitido o poeta.

Em virtude disso, os familiares de Augusto dos Anjos negam à Paraíba os ossos do poeta, as cinzas do vate, para um mausoléu em terras paraibanas.

Pode ser esse o motivo, mas pode haver também uma medida de cautela, de prudência, para não submeter Augusto a outros possíveis vexames.

O poeta, na verdade, não se tem dado bem com a Paraíba. Veja-se aquele busto que foi homenageado, domingo último, Ali na Lagoa. O prefeito Hermano de Almeida fez a festa, trouxe a banda de música, Humberto Nóbrega fez discurso e plantou o tamarindo.

E o busto ali, impassível.

Esse busto, tão bem trabalhado por Humberto Cozzo, passou longo tempo abandonado, e só foi reencontrado por obra e graça duma limpeza no atelier do escultor.

Quando juntaram tudo que era lixo, lá encontraram nos fundos do atelier o busto de Augusto entre o busto de Calabar e o outro da Marquesa de Santos.

Por que os três bustos abandonados no fundo do atelier?

Ora, ora, eram obras feitas por encomenda e que não haviam sido pagas.

Quem encomendara o busto de Augusto dos Anjos? A encomenda datava de 1924. Ele, Cozzo, fizera o busto e ficara esperando o pagamento. Como ninguém viesse, o Augusto foi recuado para o fundo do atelier. No princípio até ficara entre um Pedro I e um Borba Gato, depois, entre o índio Araribóia e o bispo Sardinha; por fim, ali, entre o traidor Calabar e a traiçoeira e pecaminosa Marquesa de Santos.

É tanto que, quando em 1945, chegou ao rio o escritor e jornalista Valdemar Duarte, presidente da Campanha Pro-Busto de Augusto dos Anjos, promovida pelo Grêmio Literário Dias Júnior, que era movimentado, entre outros, por Severino Teotônio de Carvalho, Hoje residente em Vitória do Espírito Santo, Inaldo Lacerda Lima, residente em Brasília, Abdias dos Santos Passos e Salvador Guerra de Vasconcelos, a primeira coisa que Humberto Cozzo indagou de Valdemar foi:

- Vocês têm dinheiro para pagar o busto?

- Bom, não temos não, mas vamos arranjar.

Humberto Cozzo pousou o martelo e o cinzel na cara de Getúlio Vargas (estava fazendo o busto do Presidente) e declarou:

- Não se preocupem com dinheiro. Os seus conterrâneos, todos paraibanos ilustres, já me procuraram em 1924 e encomendaram o busto. Fiz. Não pagaram. Está aí nos fundos. Dou de graça. Faço uma doação à Paraíba.

E fez. Está ai o busto na lagoa. O busto que veio do lixo, recuperado graças ao bravo Valdemar Duarte.

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Título: Até no lixo
Autor: Virgínius da Gama e Melo

Poema retirado do livro Autores paraibanos - prosa (Grafset, 2005)


BOLHAS - Ronaldo Cunha Lima



Num aquário pequeno, exposto à venda,
um peixe solitário, dentre as folhas,
de boca aberta ia soltando bolhas
e dessas bolhas cosicando rendas.

De quando em vez fazia a corrigenda
d’algumas bolhas falhas e pimpolhas,
e doutras bolhas atentava escolhas
das bolhas para encaixe e para emenda.

A visão desse peixe solitário
entre bolhas do nada é o cenário
do mundo solitário de mim mesmo.

A vida, para mim, é imenso aquário
onde tudo o que sonho é um estuário
de bolhas de ilusões, soltas a esmo.

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Título: Bolhas 
Autor: Ronaldo Cunha Lima

Soneto originalmente publicado na obra Sal no rosto (José Olympio, 2006)imobiliarias rs

A ÁRVORE DA SERRA - Augusto dos Anjos



- As árvores, meu filho, não têm alma!
E, esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pôs almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!...

- Disse – e ajoelhou-se, numa rogativa:
“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

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Título: A árvore da serra 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)hotel turismo