sexta-feira, 19 de outubro de 2012

ENTRE TÉDIO E VODCA - JOSÉ ANTONIO ASSUNÇÃO


Qual rodela de limão
em vodca submersa,
eis o estóico mundo:
geografia do tédio.

Agito o meu copo
(lúdico itinerário)
e ela apenas boceja
em sua etílica órbita.

Em que caos despencará
(não essa tosca metáfora)
quando o desesperado Deus
beber o último gole?

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Título: Entre tédio e vodca
Autor: José Antonio Assunção (1941)
Naturalidade: Sorocaba - SP
Obra: O câncer no pêssego (Ideia - 1992)

NAS CRINAS DA PAIXÃO - José Antonio Assunção



Galopemos os cavalos da chuva, amor
galopemos os seus músculos azuis.

Aqui é como se fossem feéricas nuvens
e nossos corpos, roçando,
vão tecendo dríades.

Cavalguemos, pois, essas dríades azuis
e deixemo-nos guiar, amor,
para onde apontam as crinas da paixão.

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Título: Nas crinas da paixão
Autor: José Antonio Assunção

Poema originalmente publicado no livro O câncer no pêssego (Idéia, 1992)


O ÚLTIMO VOO DO GRIFO - Weslley Barbosa



Ei-lo à beira do abismo hostil
o peso nas costas é a vida inteira
que dói, atormenta, martela, maltrata...
Só raios vorazes
e o brilho dos canivetes rompem as trevas.
O vôo no nada é novo suicídio.
Perdidas as asas,
corpo de fera nada vale.

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Título: Entre rio e margem
Autor: Weslley Barbosa

Poema publicado originalmente no livro Suspiros Mal-ditos (Ixtlan, 2010)viagens e turismo


O PESO DO VAZIO - Jomar Morais Souto


Carrega-o esta noite como a barca
ao nauta triste sem destino algum.
Velame branco e imóvel faz-se a marca
desse minguante assim sem fim nenhum...

E enquanto o nauta triste a noite embarca,
é trágico de beijos o jejum.
E é desencanto a vida e a morte parca
para um que assim é sempre e sempre um.

Procura sem saber onde encontrar.
E âncoras levanta enferrujadas,
ignorando o porto e o próprio mar.

Está sozinho. E é noite. E sente frio.
E sabe que milhões de toneladas
não pesam mais que o peso do vazio.


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Título: O peso do vazio
Autor: Jomar Morais Souto

Poema originalmente publicado no livro Agrarianas e outros poemas escolhidos (Ars Poetica, 1996)

VOZES DE UM TÚMULO - Augusto dos Anjos



Morri! E a terra – a mãe comum – o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o augusto filho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta...
Hoje, porém, que desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!



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Título: Vozes de um túmulo 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

VOZES DA MORTE - Augusto dos Anjos



Agora, sim! Vamos morrer, reunidos,
Tamarindo de minha desventura,
Tu, com o envelhecimento da nervura,
Eu, com o envelhecimento dos tecidos!

Ah, esta noite é a noite dos Vencidos!
E a podridão, meu velho! E essa futura
Ultrafatalidade de ossatura,
A que nos acharemos reduzidos!

Não morrerão, porém, tuas sementes!
E assim, para o Futuro, em diferentes
Florestas, vales, selvas, glebas, trilhos,

Na multiplicidade dos teus ramos,
Pelo muito que em vida nos amamos,
Depois da morte, inda teremos filhos!

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Título: Vozes da Morte 
Autor: Augusto dos Anjos 

Poema retirado do livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)hotel turismo


ANTE O CADÁVER DE CRUZ E SOUZA - Carlos Dias Fernandes



Ah! Que eterno poder maravilhoso
Era esse que o corpo te animava,
E que a tu’alma límpida vibrava
Como um plangente carrilhão mavioso?

Que sol ardente, que fecunda lava,
Que secreto clarão, mago e radioso,
Dentro em teu ser, como um vulcão raivoso,
Eternamente em convulsões estuava?...

Que anjos celestes, cândidos e graves,
Faziam de teu ser floridas naves,
Cheios de augustos cânticos eternos?

Que mão foi essa, lívida e gelada,
Que sufocou tu’alma, acriolada
Na tortura de todos os infernos?!...

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Título: Ante o cadáver de Cruz e Souza
Autor: Carlos Dias Fernandes

Poema retirado do livro Autores paraibanos - poesia (Grafset, 2005)


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

LANCE DE DADOS - Antonio Morais de Carvalho


Não partirei do nada.
Também não serei espelho.
Somente o mundo
é sua fotografia.

Jogando dados
contra Deus & Demo
será insonte
banir o acaso
(quem ajudará o poeta
a parar os dados
no numeral de achados?).

A fada guiará meu fado.
Mas eu guiarei a fada:
serei seu fado.

Olho para o mundo:
será meu fato?


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Título: Um lance de dados
Autor: Antonio Morais de Carvalho

Poema originalmente publicado no livro Jogo de sentidos (1986)