segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MEU CORAÇÃO - Félix Araújo



Meu coração, este país tristonho,
Em que Deus periclita e o Inferno avança,
Tem as florestas negras do meu Sonho
E as cordilheiras verdes da Esperança.

Doira-o, às vezes, um clarão risonho:
- É a crença morta que ressurge, mansa...
Mas sobrevém o temporal tristonho
Da Dúvida cruel brandindo a lança.

Brilham, no céu, os astros em delírio.
No meu país, de onde fugiu a calma,
Brotam, chorando, as rosas do martírio.

Maldito coração, que Deus te açoite!
De que valem os sóis que tenho n'alma
Se existe em mim a maldição da Noite?

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Título: Meu coração
Autor: Félix Araújo

Poema retirado do livro Obra poética (Ed. da UFPB, 1975)

RUA SOLIDÃO - Ronaldo Cunha Lima



Rua enredo de meus passos
no roteiro do colégio
            quando eu tinha o privilégio
            do aceno de seus braços.
                            Rua de beijos e abraços,
                            dos sonhos do mais superno,
                                           das juras de amor eterno
                                           nos versos que ainda entono
                                                    às folhas secas do outono,
                                                    ao vento frio do inverno.


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Título: Rua solidão
Autor: Ronaldo Cunha Lima

Poema retirado da obra Azul itinerante: poesia policrômica (José Olympio, 2006)

EURÍDICE - José Lins do Rego



Publico amanhã o meu décimo primeiro romance e volto hoje a me lembrar do primeiro que publiquei, em 1932, da tentativa do rapaz provinciano, em editora desconhecida, desprotegido, a custear a edição de sua novela, e sôfrego, na província, à espera da crítica dos grandes da metrópole.

Já lá se vai o meu curto período de quinze anos, em atividades de literatura de ficção. Chegara após a Bagaceira do grande José Américo, e outra coisa não pretendia do que contar a história da minha terra. Não ambicionava mais do que isto.

Hoje posso voltar aos tempos velhos, mesmo ao mês de outubro de 1932, com o país revolto pelos acontecimentos de São Paulo, e me sinto o rapaz de trinta anos, cheio das ilusões literárias, na pacata cidade de Maceió, a receber de Paris a minha N.R.F., a ler os meus franceses, a imaginar os planos de uma obra romanesca que parecia e era acima das minhas forças.

A sorte dera ao novelista estreante uma crítica animadora. E escreve ele outro romance em 1933. O fio de suas memórias começa a correr como um regato que viesse das cabeceiras de sua vida. Todo o mundo de sua infância e o mundo de sua gente entram na composição do seu processo de contar. E o que era apenas a vontade de um livro único, cresce no desejo do levanto de todo um universo. O tempo perdido caiu nas armadilhas do caçador.

E quando o autor novo se refaz dos abalos do sucesso, que lhe chegara de surpresa, recebe de São Paulo, um telegrama que lhe pareceu de um louco. Um senhor José Olympio lhe propõe, em despacho do submarino, uma edição de dez mil exemplares para o terceiro romance.

Desde então o autor provinciano encontrara o animador da sua literatura, aquele que sempre pedia mais um livro. Lembro-me bem da confiança depositada no provinciano quando lhe disse, em 1935: “Você, José Lins, pode fazer um romance a cada ano”.

Se falhei por quatro vezes, vai por conta da vida, que não me dá tréguas com as suas premências que procura vencê-las, fingindo que não as tenho.

Chego assim com Eurídice, ao undécimo esforço para exprimir a minha realidade e a de outras criaturas. Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo. Mas escândalo que é igual àquele das Escrituras, que vale como o poder da verdade contra o silêncio e o medo dos pusilânimes.

Fiz um livro com uma “fatia de vida” da cidade do Rio de Janeiro.

Que me perdoem os mestres destes domínios, que desde Manoel Antônio de Almeida a Marques  Rebelo, tantas grandezas têm arrancado de suas entranhas.

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Título: Eurídice
Autor: José LIns do Rego

Crônica retirada da obra O melhor da crônica brasileira (José Olympio, 2003)

sábado, 28 de dezembro de 2013

ENTRE BEIJO E BOCA (RANHURAS) - JOSÉ ANTONIO ASSUNÇÃO



(I)

Há mais que pérolas
na ostra que apertas
entre as coxas;
há bem mais que pérolas
no céu crustáceo
dessa ostra.

(II)

Entre teu sexo e tua boca,
distância nenhuma:
o tempo de saber teu corpo
na ponta da língua.

(III)

Tão tenso este momento
na ranhura de teu lábio
que se me tocas agora
certamente estalo.

(IV)

Navega-me, amor, navega-me;
até que as nossas vagas,
grávidas de amar,
esbatam-se contra as dunas
feito gaivotas estremecidas.

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Título: Entre beijo e boca: ranhuras
Autor: José Antonio Assunção (1941)
Naturalidade: Sorocaba - SP

Obra: O câncer no pêssego (Ideia - 1992)

MINHA ALMA - Félix Araújo




Tenho n'alma cidades submersas,
Igrejas medievais em tristes filas,
- Choros de mortas gerações perversas!
- Vozes de fortes gerações tranquilas!

Catedrais de ouro e luz, capelas tersas,
Góticos monastérios, doces vilas,
Ricos veludos e alcatifas persas
E tochas oscilando em longas filas.

Há uma Idade Média no meu ser:
- Beijos de castelãs e trovadores
E velhos alquimistas a gemer.

E juntos, num contraste atroz, medonho,
- Os castelos feudais das minhas Dores
E as basílicas de ouro do meu Sonho!

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Título: Minha alma
Autor: Félix Araújo

Poema retirado do livro Obra poética (Ed. da UFPB, 1977)