segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

EURÍDICE - José Lins do Rego



Publico amanhã o meu décimo primeiro romance e volto hoje a me lembrar do primeiro que publiquei, em 1932, da tentativa do rapaz provinciano, em editora desconhecida, desprotegido, a custear a edição de sua novela, e sôfrego, na província, à espera da crítica dos grandes da metrópole.

Já lá se vai o meu curto período de quinze anos, em atividades de literatura de ficção. Chegara após a Bagaceira do grande José Américo, e outra coisa não pretendia do que contar a história da minha terra. Não ambicionava mais do que isto.

Hoje posso voltar aos tempos velhos, mesmo ao mês de outubro de 1932, com o país revolto pelos acontecimentos de São Paulo, e me sinto o rapaz de trinta anos, cheio das ilusões literárias, na pacata cidade de Maceió, a receber de Paris a minha N.R.F., a ler os meus franceses, a imaginar os planos de uma obra romanesca que parecia e era acima das minhas forças.

A sorte dera ao novelista estreante uma crítica animadora. E escreve ele outro romance em 1933. O fio de suas memórias começa a correr como um regato que viesse das cabeceiras de sua vida. Todo o mundo de sua infância e o mundo de sua gente entram na composição do seu processo de contar. E o que era apenas a vontade de um livro único, cresce no desejo do levanto de todo um universo. O tempo perdido caiu nas armadilhas do caçador.

E quando o autor novo se refaz dos abalos do sucesso, que lhe chegara de surpresa, recebe de São Paulo, um telegrama que lhe pareceu de um louco. Um senhor José Olympio lhe propõe, em despacho do submarino, uma edição de dez mil exemplares para o terceiro romance.

Desde então o autor provinciano encontrara o animador da sua literatura, aquele que sempre pedia mais um livro. Lembro-me bem da confiança depositada no provinciano quando lhe disse, em 1935: “Você, José Lins, pode fazer um romance a cada ano”.

Se falhei por quatro vezes, vai por conta da vida, que não me dá tréguas com as suas premências que procura vencê-las, fingindo que não as tenho.

Chego assim com Eurídice, ao undécimo esforço para exprimir a minha realidade e a de outras criaturas. Todo romance é um caso íntimo que se faz público como um escândalo. Mas escândalo que é igual àquele das Escrituras, que vale como o poder da verdade contra o silêncio e o medo dos pusilânimes.

Fiz um livro com uma “fatia de vida” da cidade do Rio de Janeiro.

Que me perdoem os mestres destes domínios, que desde Manoel Antônio de Almeida a Marques  Rebelo, tantas grandezas têm arrancado de suas entranhas.

_______________________________

Título: Eurídice
Autor: José LIns do Rego

Crônica retirada da obra O melhor da crônica brasileira (José Olympio, 2003)

Nenhum comentário:

Postar um comentário