sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

VANDALISMO - Augusto dos Anjos


Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

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Título: Vandalismo
Autor: Augusto dos Anjos

Poema originalmente publicado no livro Eu (Editora Universitária UFPB, 2003)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

OS SILENTES BARQUEIROS - Hildeberto Barbosa Filho


O rio é uma espada
de espelhos espalhada
pela pele da terra.

O rio é uma flecha
que sangra os lajedos
do tempo.

O rio é um alaúde
que tece acalantos
ao vento.

O rio é um adágio
que embala de cismas
os silentes barqueiros.

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Título: Os silentes barqueiros
Autor: Hildeberto Barbosa Filho

Poema originalmente publicado no livro Ofertório dos bens naturais (1998)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Se acaso a noite bater-me à porta - Antonio Morais de Carvalho


Se acaso a noite bater-me à porta
em pleno dia,
eu gritarei indignado um urro selvagem
algo como uma ira por séculos contida
algo como um ato de estupro doentio
algo como um grito canceroso
algo como a dor de um intestino rasgando-se a faca.

Se acaso a dama de negro
invadir-me os aposentos
com seus gestos sempre aparentemente mansos, 
eu não me iludirei,
e só não escarrarei em sua boca
porque é vil qualquer contato
com essa cidadã venérea.

Se acaso a cortesã universal
(a única prostituta de verdade)
vier com mil requebros
mil subterfúgios
com dengues e malícia de ventre
eu cortarei meus órgãos
e os farei arder em chama alta
me exilarei de tudo que for sexo
e gritarei sozinho.

Sempre irritado
eu sempre gritarei que estou em pleno dia.
Jamais ouvirei o canto da sereia:
para mim, o que há são bruxas,
nojentas, sujas, pegajosas,
horrivelmente fedorentas e doentes,
na boca da noite.



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Título: Sem título
Autor: Antonio Morais de Carvalho

Poema originalmente publicado no livro Persona (1982)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

LÁGRIMAS DE CERA - Raul Machado


Quando Estela morreu, choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
- E era o pranto dos seus casado ao pranto
- Da natureza - mãe desventurada!

Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse, logo, em cada canto
Dos olhos, uma lágrima engastada!

Ai! não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,

Que aflita mão piedosa lhe acendera,
Iam chorando, no seu pranto mudo, 
Um rosário de lágrimas de cera!

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Título: Lágrimas de cera
Autor: Raul Machado

Poema retirado da obra Autores paraibanos: poesia (Grafset, 2005)