sábado, 11 de janeiro de 2014

Se acaso a noite bater-me à porta - Antonio Morais de Carvalho


Se acaso a noite bater-me à porta
em pleno dia,
eu gritarei indignado um urro selvagem
algo como uma ira por séculos contida
algo como um ato de estupro doentio
algo como um grito canceroso
algo como a dor de um intestino rasgando-se a faca.

Se acaso a dama de negro
invadir-me os aposentos
com seus gestos sempre aparentemente mansos, 
eu não me iludirei,
e só não escarrarei em sua boca
porque é vil qualquer contato
com essa cidadã venérea.

Se acaso a cortesã universal
(a única prostituta de verdade)
vier com mil requebros
mil subterfúgios
com dengues e malícia de ventre
eu cortarei meus órgãos
e os farei arder em chama alta
me exilarei de tudo que for sexo
e gritarei sozinho.

Sempre irritado
eu sempre gritarei que estou em pleno dia.
Jamais ouvirei o canto da sereia:
para mim, o que há são bruxas,
nojentas, sujas, pegajosas,
horrivelmente fedorentas e doentes,
na boca da noite.



_______________________________

Título: Sem título
Autor: Antonio Morais de Carvalho

Poema originalmente publicado no livro Persona (1982)

Nenhum comentário:

Postar um comentário