domingo, 11 de junho de 2017

ÁLVARES DE AZEVEDO


ÁLVARES DE AZEVEDO



INFORMAÇÕES GERAIS

Nome completo: Manuel Antônio Álvares de Azevedo 
Nascimento: 12 de setembro de 1831
Falecimento: 25 de abril de 1852
Naturalidade: São Paulo, São Paulo – Brasil
Escola literária: Romantismo
Obra mais significativa: Lira dos Vinte Anos (in: Obras Completas, 1944)

Poeta que mais intensamente representou entre nós o pessimismo, o satanismo e a boêmia byroniana, Álvares de Azevedo nascera em São Paulo, mas passou a infância no Rio de Janeiro, onde realizou seus estudos básicos, cursando Humanidades no Colégio Pedro II. Em 1849 retorna à cidade natal para matricular-se no curso de Direito. É ali que entra em contato com a Sociedade Epicureia, obtendo destaque não apenas por seus excessos boêmios, mas também por sua vocação para os estudos. Faleceu de tuberculose, aos 20 anos, sem ter deixado publicado nenhum dos seus textos, que apenas postumamente viriam a público.


POEMAS


PÁLIDA INOCÊNCIA

Cette image du cíel — innocence et beauté!
LAMARTINE

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! e um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!

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Obra: Lira dos Vinte Anos (UNAMA - s/d)



SONETO

Pálida, a luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das água embalada...
— Era um anjo entre nuvens d’alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!

_______________
Obra: Lira dos Vinte Anos (UNAMA - s/d)



ANIMA MEA

E como a vida é bela e doce e amável!
Não presta o espinhal a sombra ao leito
Do pastor do rebanho vagaroso,
Melhor que as sedas do lençol noturno
Onde o pávido rei dormir não pode?
 SHAKESPEARE, Henrique VI, 3ª p.

Quando nas sestas do verão saudoso
A sombra cai nos laranjais do vale,
Onde o vento adormece e se perfuma...
E os raios d’oiro, cintilando vivos,
Como chuva encantada se gotejam
Nas folhas do arvoredo recendente,
Parece que de afã dorme a natura
E as aves silenciosas se mergulham
No grato asilo da cheirosa sombra.

E que silêncio então pelas campinas!...
A flor aberta na manhã mimosa
E que os estos do sol d’estio murcham
Cerra as folhas doridas e procura
Da grama no frescor doentio leito.
É doce então das folhas no silêncio
Penetrar o mistério da floresta,
Ou reclinado à sombra da mangueira
Um momento dormir, sonhar um pouco!
Ninguém que turve os sonhos de mancebo,
Ninguém que o indolente adormecido
Roube das ilusões que o acalentam
E do mole dormir o chame à vida!

E é tão doce dormir! é tão suave
Da modorra no colo embalsamado
Um momento tranquilo deslizar-se!
Criaturas de Deus se peregrinam
Invisíveis na terra, consolando
As almas que padecem... certamente
Que são anjos de Deus que aos seios tomam
A fronte do poeta que descansa!

Ó floresta! ó relva amolecida,
A cuja sombra, em cujo doce leito
É tão macio descansar nos sonhos!
Arvoredos do vale! derramai-me
Sobre o corpo estendido na indolência
O tépido frescor e o doce aroma!
E quando o vento vos tremer nos ramos
E sacudir-vos as abertas flores
Em chuva perfumada, concedei-me
Que encham meu leito, minha face, a relva...
Onde o mole dormir a amor convida!

E tu, Ilná, vem pois! deixa em teu colo
Descanse teu poeta: é tão divino
Sorver as ilusões dos sonhos ledos,
Sentindo à brisa teus cabelos soltos
Meu rosto encherem de perfume e gozo!

Tudo dorme, não vês? dorme comigo,
Pousa na minha tua face bela
E o pálido cetim da tez morena...
Fecha teus olhos lânguidos... no sono
Quero sentir os túmidos suspiros
No teu seio arquejar, morrer nos lábios...
E no sono teu braço me enlaçando!

Ó minha noiva, minha doce virgem,
No regaço da bela natureza,
Anjo de amor, reclina-te e descansa!
Neste berço de flores tua vida
Límpida e pura correrá na sombra,
Como gota de mel em cálix branco
Da flor das selvas que ninguém respira.

Além, além nas árvores tranquilas
Uma voz acordou como um suspiro...
São ais sentidos de amorosa rola
Que nos beijos de amor palpita e geme?
Ah! nem tão doce a rola suspirando
Modula seus gemidos namorados,
Não trina assim tão longa e molemente...
Em argentinas pérolas o canto
Se exala como as notas expirantes
De uma alma de mulher que chora e canta...

É a voz do sabiá: ele dormia
Ebrioso de harmonia e se embalava
No silêncio, na brisa e nos eflúvios
Das flores de laranja... Ilná, ouviste?
É o canto saudoso da esperança,
É dos nossos amores a cantiga
Que o aroma que exalam teus cabelos,
Tua lânguida voz... talvez lhe inspiram!

Vem, Ilná, dá-me um beijo: adormeçamos...
A cantilena do sabiá sombrio
Encanta as ilusões, afaga o sono...
Ó! minha pensativa, descuidosa,
Eu sinto a vida bela em teu regaço,
Sinto-a bela nas horas do silêncio
Quando em teu colo me reclino e durmo...
E ainda os sonhos meus vivem contigo!

Ah! vem, ó minha Ilná: sei harmonias
Que a noite ensina ao violão saudoso
E que a lua do mar influi na mente;
E quando eu vibro as cordas tremulosas,
Como alma de donzela que respira,
Coa nas vibrações tanta saudade,
Tanto sonho de amor esvaecido...
Que o terno coração acorda e geme
E os lábios do poeta inda suspiram!

Anjo do meu amor! se os ais da virgem
Têm doçuras, têm lágrimas divinas,
É quando, no silêncio e no mistério,
Sobre o peito do amante se derramam
No sufocado alento os moles cantos...
— Cantos de amor, de sede e d’esperanças
Que nos lábios febris lhe afoga um beijo!

Ouves, Ilná?... meu violão palpita:
Quero lembrar um cântico de amores...
Fora doce ao poeta, teu amante,
Nos ais ardentes das maviosas fibras
Ouvir os teus alentos de mistura
E as moles vibrações da cantilena
Este meu peito remoçar um pouco!
Virgem do meu amor vem dar-me ainda
Um beijo! um beijo longo, transbordando
De mocidade e vida; e nos meus sonhos
Minh’alma acordará — sopro errabundo
Da alma da virgem tremerá meus seios...
E a doce aspiração dos meus amores
No condão da harmonia há de embalar-se!

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Obra: Lira dos Vinte Anos (UNAMA - s/d)



ADEUS, MEUS SONHOS!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto...
E minh’alma na treva agora dorme
Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?!... morra comigo
A estrela de meus cândidos amores,
Já que não levo no meu peito morto
Um punhado sequer de murchas flores!

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Obra: Lira dos Vinte Anos (UNAMA - s/d)



ITÁLIA

Ao meu amigo o Conde de Fé 
Veder Napoli e poi morir. 



Lá na terra da vida e dos amores 
Eu podia viver inda um momento... 
Adormecer ao sol da primavera 
Sobre o colo das virgens de Sorrento! 

Eu podia viver — e porventura 
Nos luares do amor amar a vida, 
Dilatar-se minh’alma como o seio 
Do pálido Romeu na despedida! 

Eu podia na sombra dos amores 
Tremer num beijo o coração sedento... 
Nos seios da donzela delirante 
Eu podia viver inda um momento! 

Ó anjo de meu Deus! se nos meus sonhos 
Não mentia o reflexo da ventura, 
E se Deus me fadou nesta existência 
Um instante de enlevo e de ternura... 

Lá entre os laranjais, entre os loureiros, 
Lá onde a noite seu aroma espalha, 
Nas longas praias onde o mar suspira 
Minh’alma exalarei no céu da Itália! 

Ver a Itália e morrer!... Entre meus sonhos 
Eu vejo-a de volúpia adormecida... 
Nas tardes vaporentas se perfuma 
E dorme, à noite, na ilusão da vida! 

E, se eu devo expirar nos meus amores, 
Nuns olhos de mulher amor bebendo, 
Seja aos pés da morena Italiana, 
Ouvindo-a suspirar, inda morrendo. 

Lá na terra da vida e dos amores 
Eu podia viver inda um momento, 
Adormecer ao sol da primavera 
Sobre o colo das virgens de Sorrento! 

II 

A Itália! sempre a Itália delirante! 
E os ardentes saraus, e as noites belas! 
A Itália do prazer, do amor insano, 
Do sonho fervoroso das donzelas! 

E a gôndola sombria resvalando 
Cheia de amor, de cânticos e flores... 
E a vaga que suspira à meia-noite 
Embalando o mistério dos amores! 

Ama-te o sol, ó terra da harmonia, 
Do levante na brisa te perfumas: 
Nas praias de ventura e primavera 
Vai o mar estender seu véu d’escumas! 

Vai a lua sedenta e vagabunda 
O teu berço banhar na luz saudosa, 
As tuas noites estrelar de sonhos 
E beijar-te na fronte vaporosa! 

Pátria do meu amor! terra das glórias 
Que o gênio consagrou, que sonha o povo... 
Agora que murcharam teus loureiros 
Fora doce em teu seio amar de novo... 

Amar tuas montanhas e as torrentes 
E esse mar onde bóia alcion dormindo, 
Onde as ilhas se azulam no ocidente, 
Como nuvens à tarde se esvaindo... 

Aonde à noite o pescador moreno
Pela baía no batel se escoa... 
E murmurando, nas canções de Armida, 
Treme aos fogos errantes da canoa... 

Onde amou Rafael, onde sonhava 
No seio ardente da mulher divina, 
E talvez desmaiou no teu perfume 
E suspirou com ele a Fornarina... 

E juntos, ao luar, num beijo errante 
Desfolhavam os sonhos da ventura 
E bebiam na lua e no silêncio 
Os eflúvios de tua formosura! 

Ó anjo de meu Deus, se nos meus sonhos 
A promessa do amor me não mentia, 
Concede um pouco ao infeliz poeta 
Uma hora da ilusão que o embebia! 

Concede ao sonhador, que tão-somente 
Entre delírios palpitou d’enleio, 
Numa hora de paixão e de harmonia 
Dessa Itália do amor morrer no seio! 

Oh! na terra da vida e dos amores 
Eu podia sonhar inda um momento, 
Nos seios da donzela delirante 
Apertar o meu peito macilento 

Maio, 1851. — S. Paulo

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Obra: Lira dos Vinte Anos (UNAMA - s/d)



quinta-feira, 4 de maio de 2017

A LITERATURA


Ao tomar o termo literatura para exame, é preciso que se tenha em mente o que se compreende com o referido vocábulo. Isto porque durante muito tempo o termo foi relacionado às diversas áreas de conhecimento produzidas pelo homem, desde as ciências até a filosofia, conforme afirma Massaud Moisés em A criação literária (2012). Além disso, o termo também costuma ser usado, até mesmo nos dias atuais, para se referir à bibliografia produzida a respeito de determinado assunto, ou seja, o conjunto de obras: literatura jurídica, literatura médica etc.

A partir do século XVIII passa-se gradualmente ao conceito de literatura hoje adotado (MOISÉS, 2012, p. 5), referindo-se às manifestações escritas com finalidade estética, ou seja, aos textos escritos com objetivos artísticos, dedicados à fruição, ao deleite. Aqui no MOTLI adotaremos esta noção mais estrita da literatura, tomada exclusivamente como conjunto de obras artísticas produzidas por meio de textos.

Portanto, fechamos assim o nosso conceito: Literatura é expressão dos sentimentos e impressões por meio de uma linguagem figurada. Isso quer dizer que o texto literário é ficcional, voltado à invenção de um mundo paralelo à realidade em que vivemos, um mundo de fantasia.

Ao produzir um texto, todos nós buscamos comunicar algo a alguém, daí a palavra “expressão”, utilizada acima. O fato é que nem sempre queremos expressar algo prático, que comunique uma realidade palpável e que busque informar alguém sobre determinado fato. Às vezes, queremos expressar sentimentos, ou nem mesmo isso: queremos comunicar nossas impressões acerca do mundo, mesmo que não as entendamos direito. A literatura surge como a expressão do que sentimos, do que almejamos, do que pensamos, do que gostaríamos de pensar e ver acontecer. Para Antônio Soares Amora (2006, p. 51), “uma das características da obra literária é o tipo de conhecimento da realidade que ela transmite: conhecimento intuitivo e individual”.

Portanto, um texto literário é sempre repleto de subjetivismo, de sentimentos, de visões do real.

Acrescente-se que a literatura pode conseguir muito. Pode induzir o outro à reflexão, pode proporcionar um momento de lazer e distração, pode emocionar, revoltar, incomodar, conscientizar e ensinar. Ela pode ser o elo de comunicação entre o autor e o seu leitor. Ela pode tornar-se um documento histórico, um panfleto para determinada atuação social, o ponto de partida para acionarmos memórias há muito perdidas. Enfim, pode ser tudo isso e muito mais, mas é bom que se tenha em mente que, quando surge, a única e originária finalidade do texto literário é servir à comunicação. Quando se propõe a produzir um texto de cunho artístico, o escritor não está interessado em ensinar, em criar uma teoria, em fazer história. Ele pretende fundamentalmente comunicar-se através do belo.

O que ocorre é que, sendo fruto da subjetividade, a literatura carrega consigo uma personalidade, uma visão de mundo, uma historicidade e uma gama de conhecimentos que lhe são agregados pelo artista. Desta forma, nada mais natural do que, cumprindo sua função originária, a de comunicar artisticamente, a literatura passe a adquirir outras propriedades, como a de informar, emocionar, induzir à reflexão etc.

Outro fato relevante é que o ser humano sente a necessidade cotidiana de fugir da realidade, de buscar um universo paralelo no qual refugiar-se e projetar seus ideais e seus sonhos. É nesse ponto que a literatura se torna tão encantadora. Ela é a única forma de linguagem que consegue nos transportar a uma pararrealidade, um ambiente inspirado em nosso mundo real, mas diferente dele porque, em última análise, ele não é o nosso mundo, mas uma possibilidade acerca de como ele poderia ser. Todavia, como toda arte, a literatura é uma reconstrução tão fiel da realidade que nos permitimos imaginar, quando da leitura, que aquilo é algo real. É como se estabelecêssemos um pacto com o autor, aceitando tomar sua obra como uma extensão do mundo palpável.

A respeito disso, vejamos o que dizia Aristóteles, em sua Poética:

É claro, também, pelo que atrás ficou dito, que a obra do poeta não consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer, possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade. Não é em metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta; a obra de Heródoto podia ser metrificada; não seria menos uma história com o metro do que sem ele; a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam acontecer (ARISTÓTELES, 2005, p. 28).

Essa criação de um universo ficcional e o trabalho lúdico com a linguagem são os aspectos determinantes para a classificação da literatura como arte. Estes dois aspectos são inseparáveis e indispensáveis para a existência de uma arte literária. Um texto que seja ficcional e não tenha uma preocupação estética, que não procure encantar também com a linguagem, não pode ser considerado literatura. Por outro lado, um texto linguisticamente atrativo e lúdico, apresentando rimas e sonoridade agradável, mas que não tenha a ficção como seu objetivo, não poderá passar-se por literatura.


Todavia, a fruição de um texto literário acaba fazendo o leitor tomar aquela ficção como algo possível, quase que se esquecendo que está diante de algo que não aconteceu realmente. Por isso a emoção, a afinidade, a identificação, a paixão, o ódio, por isso nos doamos tanto a uma leitura. Porque firmamos um pacto com aquela subjetividade que nos fala, e aceitamos tomar suas palavras como a confissão de algo real. Ou mais: como a confissão de algo nosso, ou pelo menos acontecendo ao nosso redor. 

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Professor Weslley Barbosa

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

DESENCANTO - MANUEL BANDEIRA


Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca,
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.


– Eu faço versos como quem morre.

Teresópolis, 1912

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Título: Desencanto
Autor: Manuel Bandeira (1886 – 1968)
Naturalidade: Recife - PE
Obra: Antologia poética (Nova Fronteira - 2001)

SUJEITO INDIRETO - PAULO LEMINSKI


      Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
      feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
      Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
      onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
      Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
      de não saber quando eu falto,
de ser, mim, indireto sujeito.

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Título: Sujeito indireto
Autor: Paulo Leminski (1944 – 1989)
Naturalidade: Curitiba - PR
Obra: Toda poesia (Companhia das Letras - 2013)

DESENCONTRÁRIOS - PAULO LEMINSKI


Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.

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Título: Desencontrários
Autor: Paulo Leminski (1944 – 1989)
Naturalidade: Curitiba - PR
Obra: Toda poesia (Companhia das Letras - 2013)

VOLÁTEIS - PAULO LEMINSKI


      Anos andando no mato,
nunca vi um passarinho morto,
      como vi um passarinho nato.

      Onde acabam esses voos?
Dissolvem-se no ar, na brisa, no ato?
      São solúveis em água ou em vinho?

      Quem sabe, uma doença dos olhos.
Ou serão eternos os passarinhos?

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Título: Voláteis
Autor: Paulo Leminski (1944 – 1989)
Naturalidade: Curitiba - PR
Obra: Toda poesia (Companhia das Letras - 2013)

UMA CARTA UMA BRASA ATRAVÉS - PAULO LEMINSKI


Uma carta   uma brasa   através
Por dentro   do texto
Nuvem cheia da minha chuva
Cruza o deserto por mim
A montanha caminha
O mar entre os dois
Uma sílaba   um soluço
Um sim   um não   um ai
Sinais dizendo nós

Quando   não   estamos   mais

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Título: Sem título (Uma carta uma brasa através)
Autor: Paulo Leminski (1944 – 1989)
Naturalidade: Curitiba - PR
Obra: Toda poesia (Companhia das Letras - 2013)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

SETE ANOS DE PASTOR JACOB SERVIA - LUÍS DE CAMÕES


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada sua pastora,
Como se não a tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: – Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida. 


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Título: Soneto (Sete anos de pastor Jacob servia)
Autor: Luís de Camões (ca. 1524 – 1580)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Sonetos (Martin Claret - 2013)

TRANSFORMA-SE O AMADOR NA COUSA AMADA - LUÍS DE CAMÕES


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como um acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[e] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.


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Título: Soneto (Transforma-se o amador na cousa amada)
Autor: Luís de Camões (ca. 1524 – 1580)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Sonetos (Martin Claret - 2013)

EU CANTAREI DE AMOR TÃO DOCEMENTE - LUÍS DE CAMÕES


Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dous mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me hei dizendo a menor parte.


Porém, para cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa,
Aqui falta saber, engenho e arte.



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Título: Soneto (Eu cantarei de amor tão docemente)
Autor: Luís de Camões (ca. 1524 – 1580)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Sonetos (Martin Claret - 2013)

AMOR É UM FOGO QUE ARDE SEM SE VER - LUÍS DE CAMÕES


Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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Título: Soneto (Amor é um fogo que arde sem se ver)
Autor: Luís de Camões (ca. 1524 – 1580)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Sonetos (Martin Claret - 2013)

SOU UM GUARDADOR DE REBANHOS - ALBERTO CAEIRO (FERNANDO PESSOA)


Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


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Título: Sem título (Sou um guardador de rebanhos)
Autor: Alberto Caeiro - heterônimo de Fernando Pessoa (1888 – 1935)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Poesias (L&PM - 2008)

TABACARIA - ÁLVARO DE CAMPOS (FERNANDO PESSOA)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede 

[sem porta 
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como 

[tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.


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Título: Tabacaria
Autor: Álvaro de Campos - heterônimo de  Fernando Pessoa (1888 – 1935)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Poesias (L&PM - 2008)

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA - FERNANDO PESSOA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz, talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Ne sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah! Poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

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Título: Sem título (Ela canta, pobre ceifeira)
Autor: Fernando Pessoa (1888 – 1935)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Poesias (L&PM - 2008)