quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

ELA CANTA, POBRE CEIFEIRA - FERNANDO PESSOA


Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz, talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Ne sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ‘stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah! Poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

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Título: Sem título (Ela canta, pobre ceifeira)
Autor: Fernando Pessoa (1888 – 1935)
Naturalidade: Lisboa - Portugal
Obra: Poesias (L&PM - 2008)

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