terça-feira, 3 de janeiro de 2017

QUANDO EU MORRER - CASTRO ALVES


Eu morro, eu morro. A matutina brisa 
Já não me arranca um riso. A fresca tarde 
Já não me doura as descoradas faces 
Que gélidas se encovam. 
Junqueira Freire 

Quando eu morrer... não lancem meu cadáver 
No fosso de um sombrio cemitério... 
Odeio o mausoléu que espera o morto, 
Como o viajante desse hotel funéreo. 

Corre nas veias negras desse mármore 
Não sei que sangue vil de messalina, 
A cova, num bocejo indiferente, 
Abre ao primeiro a boca libertina. 

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério... 
Que povo estranho no porão profundo! 
Emigrantes sombrios que se embarcam 
Para as plagas sem fim do outro mundo. 

Tem os fogos — errantes — por santelmo. 
Tem por velame — os panos do sudário... 
Por mastro — o vulto esguio do cipreste, 
Por gaivotas — o mocho funerário... 

Ali ninguém se firma a um braço amigo 
Do inverno pelas lúgubres noitadas... 
No tombadilho indiferentes chocam-se 
E nas trevas esbarram-se as ossadas... 

Como deve custar ao pobre morto 
Ver as plagas da vida além perdidas, 
Sem ver o branco fumo de seus lares 
Levantar-se por entre as avenidas!... 

Oh! perguntai aos frios esqueletos 
Por que não tem o coração no peito... 
E um deles vos dirá: “Deixei-o há pouco 
De minha amante no lascivo leito.” 

Outro: “Dei-o a meu pai.” Outro: “Esqueci-o 
Nas inocentes mãos de meu filhinho.”... 
... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro 
O coração do morto volta ao ninho!... 

 São Paulo, de março 1869 

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Título: Quando eu morrer
Autor: Castro Alves (1847 – 1871)
Naturalidade: Castro Alves - BA
Obra: Espumas flutuantes (Fundação Biblioteca Nacional - s/d)

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