quinta-feira, 4 de maio de 2017

A LITERATURA


Ao tomar o termo literatura para exame, é preciso que se tenha em mente o que se compreende com o referido vocábulo. Isto porque durante muito tempo o termo foi relacionado às diversas áreas de conhecimento produzidas pelo homem, desde as ciências até a filosofia, conforme afirma Massaud Moisés em A criação literária (2012). Além disso, o termo também costuma ser usado, até mesmo nos dias atuais, para se referir à bibliografia produzida a respeito de determinado assunto, ou seja, o conjunto de obras: literatura jurídica, literatura médica etc.

A partir do século XVIII passa-se gradualmente ao conceito de literatura hoje adotado (MOISÉS, 2012, p. 5), referindo-se às manifestações escritas com finalidade estética, ou seja, aos textos escritos com objetivos artísticos, dedicados à fruição, ao deleite. Aqui no MOTLI adotaremos esta noção mais estrita da literatura, tomada exclusivamente como conjunto de obras artísticas produzidas por meio de textos.

Portanto, fechamos assim o nosso conceito: Literatura é expressão dos sentimentos e impressões por meio de uma linguagem figurada. Isso quer dizer que o texto literário é ficcional, voltado à invenção de um mundo paralelo à realidade em que vivemos, um mundo de fantasia.

Ao produzir um texto, todos nós buscamos comunicar algo a alguém, daí a palavra “expressão”, utilizada acima. O fato é que nem sempre queremos expressar algo prático, que comunique uma realidade palpável e que busque informar alguém sobre determinado fato. Às vezes, queremos expressar sentimentos, ou nem mesmo isso: queremos comunicar nossas impressões acerca do mundo, mesmo que não as entendamos direito. A literatura surge como a expressão do que sentimos, do que almejamos, do que pensamos, do que gostaríamos de pensar e ver acontecer. Para Antônio Soares Amora (2006, p. 51), “uma das características da obra literária é o tipo de conhecimento da realidade que ela transmite: conhecimento intuitivo e individual”.

Portanto, um texto literário é sempre repleto de subjetivismo, de sentimentos, de visões do real.

Acrescente-se que a literatura pode conseguir muito. Pode induzir o outro à reflexão, pode proporcionar um momento de lazer e distração, pode emocionar, revoltar, incomodar, conscientizar e ensinar. Ela pode ser o elo de comunicação entre o autor e o seu leitor. Ela pode tornar-se um documento histórico, um panfleto para determinada atuação social, o ponto de partida para acionarmos memórias há muito perdidas. Enfim, pode ser tudo isso e muito mais, mas é bom que se tenha em mente que, quando surge, a única e originária finalidade do texto literário é servir à comunicação. Quando se propõe a produzir um texto de cunho artístico, o escritor não está interessado em ensinar, em criar uma teoria, em fazer história. Ele pretende fundamentalmente comunicar-se através do belo.

O que ocorre é que, sendo fruto da subjetividade, a literatura carrega consigo uma personalidade, uma visão de mundo, uma historicidade e uma gama de conhecimentos que lhe são agregados pelo artista. Desta forma, nada mais natural do que, cumprindo sua função originária, a de comunicar artisticamente, a literatura passe a adquirir outras propriedades, como a de informar, emocionar, induzir à reflexão etc.

Outro fato relevante é que o ser humano sente a necessidade cotidiana de fugir da realidade, de buscar um universo paralelo no qual refugiar-se e projetar seus ideais e seus sonhos. É nesse ponto que a literatura se torna tão encantadora. Ela é a única forma de linguagem que consegue nos transportar a uma pararrealidade, um ambiente inspirado em nosso mundo real, mas diferente dele porque, em última análise, ele não é o nosso mundo, mas uma possibilidade acerca de como ele poderia ser. Todavia, como toda arte, a literatura é uma reconstrução tão fiel da realidade que nos permitimos imaginar, quando da leitura, que aquilo é algo real. É como se estabelecêssemos um pacto com o autor, aceitando tomar sua obra como uma extensão do mundo palpável.

A respeito disso, vejamos o que dizia Aristóteles, em sua Poética:

É claro, também, pelo que atrás ficou dito, que a obra do poeta não consiste em contar o que aconteceu, mas sim coisas quais podiam acontecer, possíveis no ponto de vista da verossimilhança ou da necessidade. Não é em metrificar ou não que diferem o historiador e o poeta; a obra de Heródoto podia ser metrificada; não seria menos uma história com o metro do que sem ele; a diferença está em que um narra acontecimentos e o outro, fatos quais podiam acontecer (ARISTÓTELES, 2005, p. 28).

Essa criação de um universo ficcional e o trabalho lúdico com a linguagem são os aspectos determinantes para a classificação da literatura como arte. Estes dois aspectos são inseparáveis e indispensáveis para a existência de uma arte literária. Um texto que seja ficcional e não tenha uma preocupação estética, que não procure encantar também com a linguagem, não pode ser considerado literatura. Por outro lado, um texto linguisticamente atrativo e lúdico, apresentando rimas e sonoridade agradável, mas que não tenha a ficção como seu objetivo, não poderá passar-se por literatura.


Todavia, a fruição de um texto literário acaba fazendo o leitor tomar aquela ficção como algo possível, quase que se esquecendo que está diante de algo que não aconteceu realmente. Por isso a emoção, a afinidade, a identificação, a paixão, o ódio, por isso nos doamos tanto a uma leitura. Porque firmamos um pacto com aquela subjetividade que nos fala, e aceitamos tomar suas palavras como a confissão de algo real. Ou mais: como a confissão de algo nosso, ou pelo menos acontecendo ao nosso redor. 

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Professor Weslley Barbosa